lucy fossil humano

Adis Abeba, Etiópia

 

Adis Abeba, a capital do único país africano nunca colonizado, apresenta dificuldades na infraestrutura mas tem pontos interessantes, como o Museu Nacional da Etiópia, além de ser um tanto exótico.

Em 31 de agosto de 2016 à noite, me encontrei com meu calouro de faculdade Haddad e meu primo desconhecido Tobias no aeroporto de Guarulhos. Algumas horas depois partiríamos para um tour pelo leste e sul da África. A passagem de ida pela Etiópia e volta pela África do Sul havíamos comprado alguns meses antes em uma promoção da Ethiopian Airlines por 1816 reais com taxas. Devido à falta de informações precisas na internet, grande parte do roteiro foi sendo definido enquanto já estávamos por lá.

O voo foi conforme o esperado, nada de muito bom e nem muito ruim, sem contar a longa distância, que incluiu breve escala em Togo. Menção honrosa para a cerveja etíope servida, a premium lager Habesha.

Infraestrutura do turismo em Adis Abeba

Chegamos no início da noite no Aeroporto Internacional Bole, na capital e maior cidade da Etiópia, Adis Abeba, com cerca de 3,7 milhões de habitantes. Com uma altitude de mais de 2300 m, apesar de ficar próxima à Linha do Equador, a temperatura é bem agradável nessa época, conforme sentimos ao sair do avião. Logo sacamos uma boa quantia da moeda local (birr!) no caixa eletrônico antes da imigração e pagamos os 50 dólares pro visto de turismo da Etiópia ser emitido na hora (sim, para entrar no país precisa de visto).

Dividimos um táxi até a hospedagem reservada previamente, a Family Cozy Bed & Breakfast, cuja diária custou 15 dólares por cabeça com café-da-manhã. Apesar do Michael (aparentemente o responsável pelo local) falar inglês fluente e ser muito simpático e prestativo, de resto ali já começamos a ter uma boa noção de como funciona o atrasado país. São um tanto precárias as condições de higiene, como o rato que passeava pela cozinha da hospedagem – não é de se admirar que estava ocorrendo um surto de cólera em Adis Abeba naquele período.

family cozy Bed Breakfast

Mesmo na capital, pouquíssimos dominam o idioma inglês, apenas sua língua de caracteres indecifráveis que se chama amárico. Provavelmente, por ter sido o único país do continente não colonizado por europeus, após uma vitória triunfante sobre a Itália. Outro motivo é o de receber poucos turistas de fora da África: durante os dias em que ficamos, pudemos contar a quantidade de brancos que vimos pelas ruas.

A infraestrutura também deixa a desejar: cartões de crédito aceitos somente em hotéis de luxo; quedas de luz não são raras; internet vai e volta; pouquíssimos semáforos, como o da praça Meskel, a principal, que leva 4 minutos para abrir!

praca meskel ethiopian

Ao menos isso foi uma melhora expressiva em relação à absurda situação anterior, mostrada nesse vídeo.

Apesar disso tudo, a desnutrição vem caindo ano a ano no país, desde a grande fome dos anos 80. Além disso, Adis Abeba é mais segura que as capitais brasileiras. E o despreparo da Etiópia em termo de turismo pode ser visto como um ponto positivo para viajantes que estão atrás de uma experiência mais original e um país barato.

Superada a dificuldade em conseguir pedir nosso prato, a janta foi injera, o principal prato da culinária etíope. É uma massa esponjosa parecida a uma panqueca, mas à base do resistente e nutritivo grão tefe, o principal cultivado no país. Os celíacos podem comer tranquilos, pois não há glúten. Quando puro tem pouco gosto, mas ele sempre é acompanhado de alguma proteína acompanhada de vegetais e temperada com pimenta e coentro, entre outras especiarias. Apesar do coentro, eu e Haddad curtimos, já o Tobias não. Degustamos também as gostosas cervejas etíopes St. George, a marca mais popular do país, fabricada desde 1925.

comida etiope

Na manhã seguinte fomos ao escritório da Ethiopian Airlines no meio da cidade. A cia aérea estatal, a única que opera voos domésticos, é a primeira que eu conheço que vende passagens pelo preço quase igual no dia do voo ou meses antes. Acredito que seja pela baixa procura, já que a população local não tem condições financeiras, pois os voos não são nada baratos se comparados com os demorados trajetos terrestres. Dica: quem voa o trecho internacional com a Ethiopian Airlines tem direito a um desconto nos voos nacionais.

Como no norte do país choveria nos próximos dias e estavam ocorrendo protestos violentos contra o governo, resolvemos deixar de fora os destinos mais conhecidos do país, Gondar e Lalibela. Em vez disso, compramos o voo para Arba Minch (relato em breve) no sul. Corremos do escritório – uma hora depois já estávamos embarcando no turbo-hélice até a tal cidade, donde regressamos alguns dias depois.

Museu Nacional da Etiópia

Quando voltamos, seguimos diretamente ao Museu Nacional da Etiópia (National Museum of Ethiopia), antes que o mesmo encerrasse às 5 e meia. Por apenas 10 birr (menos de 2 reais!), o espaço bilíngue demonstra bem superficialmente através de artefatos e imagens a história do país. Ao menos as fotos por dentro são permitidas.

Museu Nacional da Etiópia

O primeiro piso contém objetos de períodos antigos e medievais, bem como artigos de antigos imperadores, como o venerado Haile Selassie. No segundo piso há obras de arte tradicionais e comtemporâneas de artistas etíopes, como Afewerk Tekle. Já o terceiro é uma exibição etnográfica sobre a riqueza cultural e modos de vida das etnias da Etiópia.

inside national museum ethiopia

No entanto, a seção principal que faz valer o passeio fica no subsolo. É a de arqueologia e paleontologia, sendo que essa última apresenta fósseis de animais encontrados na região.

national museum of ethiopia fossils

No país foram escavados e descobertos algumas das mais antigas espécies de hominídeos. Entre elas, encontra-se o esqueleto original da famosa Lucy, o australopiteco mais completo já encontrado.

lucy fossil humano

Saindo de lá ao escurecer, para jantar ficamos com um sandubão numa lanchonete próxima. Ao retornar para o mesmo hotel de antes, tivemos que nos contentar com mais um apagão de luz.

A dor de cabeça para comprar o voo seguinte de saída para o Quênia foi grande. Como não conseguia de forma alguma pela internet no celular, ao amanhecer tive que ir até o luxuoso hotel Hilton, onde ficam os escritórios das únicas companhias que faziam a rota: Ethiopian Airlines e Kenya Airways. Muitos rolos depois, a situação foi resolvida por 198 dólares.

Almoçamos pelo centro, levados por 2 nativos que queriam praticar o inglês com a gente. Estávamos bem receosos, achando que eles pediriam dinheiro no final, mas isso não aconteceu.

Por ali passa o moderno metrô elevado construído há um ano com uma ajuda dos chineses, sendo o primeiro sistema do tipo em toda a África!

Addis Ababa Light Rail

Na estação Stadium, em frente a um estádio de futebol, pagamos os míseros centavos de passagem para ver a cidade de cima. Logo que o trem saiu do centro infelizmente a miséria já ficou evidente. Por isso, pegamos o caminho inverso logo que desembarcamos.

Festival de Ano Novo

No fim do dia participamos do festival em comemoração ao Enkutatash, o ano novo… pois é, a Etiópia utiliza um calendário próprio de datas, onde até mesmo as horas do dia são diferentes, uma confusão só!

Ethiopian New Year Celebrations

Localizado no topo da praça Meskel, em seu pavilhão a céu aberto vendia-se de tudo, incluindo xing-lings; ficamos com as baratas (12 birr ~ 1,7 reais) e apreciáveis premium lager St. George, enquanto assistíamos a shows musicais animadinhos. Aparentemente a mesma banda tocava todas as canções, trocando apenas o vocalista como num show de calouros.

Ethiopian New Year Festival

Tomamos um voo para Nairóbi na manhã seguinte. Um mês depois, voltando de Durban, África do Sul, voei pela Ethiopian Airlines novamente até Adis Abeba, chegando lá à noite. Como a conexão seguinte à São Paulo seria apenas na manhã seguinte, a companhia aérea arcou com o custo de um hotel (aleatório) e o transporte de ida e volta pro aeroporto (van). O processo pra conseguir os vouchers e a dispensa de visto no aeroporto foi bem demorado, já que havia muita gente na mesma situação que eu.

Pelo menos o hotel, apesar de velho, era melhor do que o que eu havia me hospedado antes. Na cama mesmo cabia uns 3.

ethiopian airlines transit hotel

O jantar foi legalzinho, mas o café nem tanto. De qualquer forma, não tive muito tempo pra aproveitar, já que o translado saiu cedão para continuar a viagem de volta ao Brasil.

Mapa das atrações turísticas de Adis Abeba

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