Angra dos Reis, RJ (Ilha Grande)

Angra dos Reis, RJ (Ilha Grande)

 

 

Angra dos Reis

 

Aproveitei que estava no Rio de Janeiro durante as Olimpíadas para conhecer a região chamada de Costa Verde. Saindo da rodoviária Novo Rio comprei por 54 reais uma passagem na empresa Costa Verde Transportes para Angra dos Reis.

Três horas depois cheguei. Enquanto aguardava a lancha até Ilha Grande (a principal das 365 ilhas de Angra) caminhei pela orla para dar uma olhada rápida na cidade. Do terminal rodoviário até o cais são 1,5 km. Não me agradou muito a faixa de residências, comércios e alguns prédios históricos, sobretudo igrejas, espremidos entre o mar e o morro desmatado.

O Convento de Nossa Senhora do Carmo é uma das principais. Construído e reformado entre os séculos XVII e XVIII em estilo colonial, ainda está em pleno funcionamento.

 

convento de nossa senhora do carmo angra dos reis

 

Antes de pegar o barco, sugiro fortemente que passem no supermercado que fica bem atrás do atracadouro e façam um rancho, pois a comida na Ilha Grande é super cara. Feito isso, peguei a lancha da Objetiva Tour (30 reais) e menos de 1 hora depois desembarquei com mais alguns na vila de Abraão, em Ilha Grande.

 

Vila de Abraão

 

vila de abraão da ilha grande

 

Mesmo que mal chegue a um quilômetro de extensão, Abraão é o maior núcleo urbano de Ilha Grande. Possui uma agradável orla com quase tantos barcos quanto casas, mas também diversas pousadas, restaurantes e operadoras de passeios aquáticos.

Fiquei no Abraão Hostel, por ter uma boa localização e ser um dos mais baratos. Paguei 35 por diária em dormitório coletivo, acreditando que teria direito ao café-da-manhã, conforme estava descrito no site do albergue. No entanto, o café só está disponível em alta temporada. Fora isso, a equipe que cuida do lugar é super gente boa.

As trilhas da ilha são pré-estabelecidas, o que facilita o trabalho dos visitantes. Não é obrigatório o uso de um guia, mas recomendado para quem estiver sozinho ou não tiver experiência em trilhas e preparo físico adequado.

 

trilhas de ilha grande

 

Pico do Papagaio

 

Em um lindo dia ensolarado fui sozinho justo pela trilha 13, a mais difícil, que parte do nível do mar em Abraão para o Pico do Papagaio a praticamente 1 km de altitude. No início, já considerado parque estadual, se passa por um trecho da estrada que leva até a vila de Dois Rios, no lado sul da ilha. O único veículo a motor que circula por ali é o micro ônibus da UERJ, que não vai te dar carona. Nessa parte já dá para notar as primeiras aves, como o surucuá e a guaracava, além dos saguis exóticos e o ruído assustador dos bugios.

A trilha efetivamente começa quando surge essa placa na lateral da pista. Conforme aparenta pela foto, a trilha não é das mais abertas.

 

placa início trilha 13

 

Ao ingressar na mata,  percebe-se o quão preservada ela é pela variedade de seres vivos que se encontra por ali. Enquanto eu subia lentamente um esquilo atravessou a minha frente. E eu nem sabia que havia esquilos no Brasil!

Pouco depois outro carinha passou, mas esse com mais tranquilidade, possibilitando uma foto, ainda que estivesse um pouco escuro no interior da floresta. Revirando o chão com seu focinho, era um dos dois tatus-galinha (Dasypus novemcinctus) que vi.

 

tatu em ilha grande

 

Na segunda metade da trilha, ainda com poucas aberturas na mata, passei por um bando de aves que permanecia vocalizando e pulando de um lado para o outro. Papa-taoca-do-sul, cuspidor-de-máscara-preta, arapaçu-liso, várias criaturinhas que eu nunca tinha visto antes e que não conseguiria identificar, não fosse pelo WikiAves.

 

arapaçu-liso

 

As fontes de água ao longo da trilha são escassas, dependendo de quanto choveu nos últimos dias, e de qualidade duvidosa. Levem um filtro caso venham utilizá-las. Cruzei com pouca gente subindo ou descendo, então é melhor não contar com a ajuda de outros.

Algumas horas depois, quase sempre em subidas íngremes, cheguei à rocha que denomina o local, com seu formato característico.

 

pedra do pico do papagaio

 

A partir desse ponto você tem que literalmente escalar a rocha, sendo que para subir a cabeça do bicho somente se tiver com corda ou, como descobri em seguida, voltando e circundando por outra trilha. Lá de cima o visual 360º é fantástico. Você consegue ver a mata preservada verde-amarelada, a vila de Abraão do lado esquerdo, a praia de Lopes Mendes no lado direito e a restinga da Marabaia (já no continente) ao fundo.

 

parrot's peak

 

No começo da descida acabei parando fora da trilha, já que ela não é tão bem sinalizada. Só percebi quando estava emaranhado em um bambuzal. Com o GPS ligado na trilha do Wikiloc consegui voltar para o caminho certo.

Engana-se quem acha que descer é a parte fácil. Você precisa frear o tempo todo, e além disso a musculatura envolvida não é a que usualmente temos mais desenvolvida.

Do meio para o final, já cansado, consegui finalmente ver alguns indivíduos de um bando de macacos, ainda que de longe. É sempre interessante ver o comportamento de um grupo selvagem, mas lembrem-se de manter a distância.

 

macaco ilha grande

 

Chegando na vila com o sol quase se pondo, repus a energia que perdi naquele que considerei o melhor custo-benefício alimentar da ilha, ao menos para quem come bastante. O rodízio da pizzaria Dom Pepe, por 35 reais, inclui não somente pizzas doces e salgadas, mas também massas e até batata frita. Fiquei umas 2 horas ali, ingerindo lentamente enquanto via as Olimpíadas na TV.

 

Mergulho no Abraãozinho

 

Como eu havia levado meu equipamento de snorkeling na mochila, queria fazer uso na Ilha Grande. Para não precisar pagar um passeio até alguma outra ilha ou até a Lagoa Azul, escolhi um costão próximo. Percorri a curta trilha até a praia do Abraãozinho e caí na água no canto direito em direção à praia particular do Morcego.

Assim que botei a cara na água já vi alguma vida. Na transição entre o fundo arenoso e o costão, há algumas estrelas-do-mar-comuns (Asterias rubens).

 

snorkeling praia do abraãozinho

 

Peixes não são tão numerosos. Quanto aos corais, estes travam uma dura batalha. Além desse lugar específico não ser dos mais conservados, há ainda a espécie invasora coral-sol (Tubastraea sp.), que veio da Ásia nos anos 80 e já ocupou grandes áreas da costa brasileira, deslocando espécies nativas como a Palythoa caribaeorum, o coral ainda em maior número na foto seguinte.

 

coral sol ilha grande

 

Segui nadando pelo costão em águas com baixa visibilidade por uns 600 m, até chegar na praia do Morcego. Há uma casa ali e um aviso para que ninguém invada o terreno. Descansei um pouco no muro, para então cruzar o mar até a pequenina Ilha do Morcego. Fiquei um pouco decepcionado, pois havia menos vida ali do que no costão da praia anterior; talvez uma quantidade maior de peixes, mas não de espécies.

 

ilha do morcego snorkeling

 

O trajeto que percorri está descrito nesse link do Wikiloc. Voltei nadando e gravando um vídeo com a GoPro.

 

 

Chegando em terra, encontrei George (o mineiro que estava em meu quarto) lagarteando na areia da praia do Abraãozinho, que já tinha uma galera. Filei um pouco do peixe que ele tinha comprado ali, que por acaso estava uma delícia, e voltei pra vila.

À noite assistimos às Olimpíadas na sala do albergue, em companhia da recém-chegada carioca Andreza.

 

Praia de Lopes Mendes

 

Para chegar a uma das praias mais bonitas do Parque Estadual da Ilha Grande, tive antes que percorrer as trilhas mais leves e frequentadas até as praias de Palmas e Pouso. Como consequência da presença humana, há menos bichos. E de novidade na vegetação, há um manguezal pouco acessível atrás dessas praias.

 

enseada das palmas

 

Há lanchas para ir e retornar de ambas as praias a Abraão, custando entre 20 e 30 reais.

Segui mais um pouco até chegar em Lopes Mendes. Em vez de caminhar pela areia da praia, preferi pegar uma trilha de restinga que passa paralelamente, em sentido leste. Logo no começo flagrei um esquilo (Sciurus aestuans) comendo algum fruto. Consegui ficar um tanto próximo antes dele fugir.

 

sciurus aestuans

 

O resto da trilha, que vai até o final da praia, é povoado pela vegetação de restinga de menor porte e por aves e moscas chatas.

Deitei sob uma das palmeiras e fiquei relaxando por um tempo, curtindo a tranquilidade daquele lado de Lopes Mendes, antes de caminhar para a porção mais frequentada, subir nas rochas e picar a mula.

 

praia mais bonita de ilha grande

 

Voltei com uma lancha a partir de Pouso. São poucos minutos pela água. Antes de partir, vi um pica-pau-de-banda-branca (Dryocopus lineatus) em um dos coqueiros, completando o rol de espécies nunca antes vistas por mim.

 

pica-pau-de-banda-branca em ilha grande

 

À noite fui novamente no rodízio de pizza, dessa vez com Andreza. Depois da baita refeição fomos conhecer a única balada da ilha, o também pousada e albergue Aquário. De graça para entrar, fica bem em frente ao mar, com um píer próprio. O som é variado, e é frequentado tanto por turistas quanto locais. Curtimos.

 

boate em ilha grande

 

Na manhã seguinte abandonei a calmaria e voltei pro continente, dessa vez por Conceição de Jacareí, de onde peguei um ônibus para o Rio de Janeiro.

 

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