Cabanaconde, Peru (Vale do Colca)

Cabanaconde, Peru (Vale do Colca)

 

 

Cabanaconde

 

No começo da noite Arequipa virou passado, com a chegada em Cabanaconde. Os ônibus embarcam e desembarcam na praça principal (aparentemente a única), mas o lugar é tão pequeno que você pode ir a pé a qualquer hospedagem que tenha escolhido – no meu caso o hostel Homestay Pachamama.

Coincidentemente encontrei pela terceira vez nessa viagem o francês Manu, no mesmo quarto de 10 dólares em que fiquei. O único ponto negativo da aconchegante hospedaria é que não há internet para os hóspedes.

Assim como meu colega, havia franceses por todos os lados, até o recepcionista era. Enquanto conversavam entre eles, eu folheava um guia de viagem e devorava uma das deliciosas, porém nada baratas, pizzas feitas no forno à lenha.

 

cabanaconde

 

Na manhã Manu seguiu com os franceses por uma rota, enquanto eu fui sozinho por outra. Como o caminho originalmente planejado não levaria o dia todo, dormi bastante e parti pelas 10 da matina, parando ainda para observar e fotografar os enormes condores andinos na borda do cânion. Não precisei esperar muito até que cruzassem o céu lentamente em meu campo de visão.

 

andean condor

 

A vista do mirante a quase 3400 m é esplêndida. É possível ver todos os povoados da rota que seguiria, além das montanhas quase desérticas, florestas esparsas e o Rio Colca.

 

colca canyon

 

Para prosseguir na trilha ao redor do cânion, você que é sul-americano tem que pagar 40 soles (42 reais) no bilhete comprado de uma pessoa que estará no meio do caminho, ou então previamente em Chivay. Havia pelo menos uma dezena de turistas percorrendo o mesmo trecho, todos com guias. Eu não considero necessário, se você já tiver alguma experiência com esse tipo de aventura, além de um GPS ou mapa para orientação, ainda que possa pedir auxílio aos simpáticos moradores dos povoados do vale. Uso e recomendo o Maps.me, cujos mapas podem ser armazenados no celular para uso offline.

Dica: leve alimentos energéticos fáceis de digerir, como carboidratos em gel, para não dificultar ainda mais o trabalho do seu sistema digestivo e dos músculos. Nessa altitude, a pressão atmosférica reduzida fará com que menos de 70% do oxigênio disponível no nível do mar seja absorvido pelo seu corpo.

O trecho inicial é de descida em ziguezague sem parar. Vá com um calçado e meias adequadas, caso contrário o atrito dentro de seu tênis pelo fato de ter que frear a cada passo resultará em muitas bolhas. Torções também devem ser consideradas.

 

valle del colca

 

Ao chegar ao ponto mais baixo (2350 m), há uma ponte para cruzar o rio Colca. Não é possível recarregar seu cantil ali, pois a água é barrenta.

 
colca valley
 

Tapay

 

Parei para comer algo enquanto trocava uma ideia com o guia de outro grupo que estava descansando naquele lugar. Decidi ampliar a rota prevista. Em vez de pegar o caminho da esquerda para Malata, tomei a outra rota, que passa por cima de San Juan de Chuccho até a vila de Tapay. Nessa hora senti o efeito da altitude na carga da mochila. Tinha cometido o maior erro da viagem, que foi levar o mochilão inteiro com uns 13 kg comigo pela trilha. Tarde demais. Arrastei-me na ascensão vertical. Para piorar, o tempo sempre inconstante, nessa que era a temporada de chuvas peruana, resolveu trovejar e desaguar. Ao menos de vez em quando aparecia algum ser para alegrar o caminho.

 

passarinho peru

 

No meio do caminho pensei fortemente em desistir, mas reuni forças e segui em frente. O clima resolveu então me ajudar. Também achei uma bica d’água no caminho. Um tempo depois cheguei lá, dando graças em frente à igreja na praça do povoado, a 3 mil metros de altitude.

 

iglesia de tapay

 

Ao deixar a vila, um incidente quase desastroso. No meio do caminho em que seguia surgiu um rebanho de ovelhas guiadas por um cão! Se isso por si só já não fosse fora do comum, o cão resolveu avançar em mim, provavelmente supondo que eu fosse fazer algum mal às ovelhas. Saí de fininho da estrada usando a mochila de escudo e despistei o cachorro pra não arriscar ter que ser levado às pressas a um hospital para sabe-se lá onde tomar as doses de vacina da raiva.

 

rebanho peruano

 

Dali em diante o caminho foi praticamente só de descida. Depois de uma cachoeira mirrada, passei por Cosñirhua (saúde!) e Malata, duas vilas feias onde não há nada para fazer, a não ser que você queira comprar mantimentos, fazer uma refeição ou procurar hospedagem. Como não necessitava de nada disso, continuei em direção oeste, acompanhado por um cachorro que resolveu me seguir. Um dócil, dessa vez.

 

igreja em cosñirhua

 

Sangalle

 

Exausto, atravessei o rio novamente e consegui chegar ao “oásis” de Sangalle antes do sol se pôr, minha maior preocupação. Aqui começou mais um drama. A hospedagem em que fiquei, o Jardín El Eden Lodge, só tinha o jardim de bonito. A habitação, apesar de individual, provavelmente foi a pior em que já fiquei na minha vida. No banheiro não havia luz, nem água quente no chuveiro, nem papel higiênico ou assento no vaso sanitário. Enquanto isso, no quarto havia coisas: goteiras, teias de aranha e muita sujeira. Ou seja, não consegui relaxar, apesar de estar necessitando muito!

 

pior hotel do peru

 

No café-da-manhã terminei de comer o que eu já tinha levado para desfazer-me de um pouco do peso. O parto final começou em seguida. Sem alternativa, tive que subir mais de 1 quilômetro (2250-3350 m) quase em linha reta. Parei umas trocentas vezes para descansar no meio do penhasco.

 
sangalle oasis
 

Esse trecho é cheio de bifurcações, mas aparentemente quase todas levam ao mesmo ponto. Uma dica para não se perder é seguir a rota que tiver as fezes animais mais frescas, já que mulas e cavalos passam por ali todos os dias.

Mais que morto, me joguei num gramado sob eucaliptos quando cheguei ao topo. Comi o último sanduba e tomei o último gole de água, antes de voltar à cidadezinha de Cabanaconde.

Eis o caminho completo do circuito de trekking no Vale do Colca que segui. Para que você possa fazer o mesmo por conta própria, basta colocar o arquivo do registro em um GPS ou até mesmo em seu smartphone Android ou iOS, após baixar o aplicativo do Wikiloc.

 

Powered by Wikiloc

 

Na praça da cidade fui a um bar que tinha internet, a tempo de escapar da chuvarada que caiu em seguida, e à noite, tomei uma bira com outros franceses e dormi no mesmo albergue de antes da trilha.

 

Chivay

 

Por 5 soles, pouco mais de 5 reais, tomei o ônibus matutino para Chivay, de onde embarcaria para Puno. No caminho, impressionantes vistas da agricultura em terraços, comum nos povos andinos. Essa técnica é usada em terrenos muito íngremes para reduzir a erosão.

 

terraços agrícolas

 

Ao chegar, tive sorte de estar por lá no horário de uma apresentação de Wititi, dança antiga típica do Colca onde homens escondem a cara e vestem-se como mulheres. Achei meio boba, mas tradição é tradição.

 

chivay peru

 

Já estava sem dinheiro algum a essa hora. Sofri nessa viagem por não aceitarem cartão de crédito Mastercard em praticamente nenhuma cidade ou estabelecimento, somente Visa, que eu não tinha. Pra piorar não consegui sacar dinheiro nos escassos caixas eletrônicos de Chivay. Como resultado, tive que catar as moedas que tinha guardado e almoçar uma gororoba barata da feira da cidade, que incluiu, entre outros ingredientes, uma batata negra sem gosto.

 

comida peruana

 

Às 13 h embarquei no caro ônibus turístico da empresa 4M Express (50 doletas!) até Puno, onde chegaria mais de 6 horas depois. O motivo de eu ter comprado esse bilhete era para poder conhecer algo da Reserva Nacional Salinas y Aguada Blanca, onde camelídeos ameaçados de extinção como a vicunha, além de diversas aves, encontram-se protegidos. A empresa em teoria pararia tempo suficiente em alguns pontos no meio do caminho. No então, ela reduziu o número de pontos e o tempo em cada um, sem explicação. Ponto negativo pra 4M Express.

Assim, tive que me contentar em ver de longe os rebanhos de criação de lhamas e alpacas até chegar ao Lago Titicaca.

 

lhama e alpaca

 

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