praia bonita cape town

Cidade do Cabo, África do Sul

 

Continuando minha jornada pela África, no final de 2016 voei pela companhia Fastjet de Victoria Falls a Joanesburgo, esperando um bocado no aeroporto da capital sulafricana pelo trecho seguinte para Cidade do Cabo. Me impressionei com a quantidade de voos que partiam pra lá. O meu foi pela estatal South African Airways com o custo de 840 rands (~198 reais), preço similar ao das cias nacionais de baixo custo (Kulula, Safair e Mango), mas incluindo serviço de bordo e milhas na Star Alliance.

O voo atrasou. O problema disso foi que perdi o último ônibus à cidade, pois estes inexplicavelmente param de funcionar pelas 9 e meia da noite. Ainda assim, encontrei alguém para dividir o caro táxi.

Green Point

Por quase todo o período, fiquei hospedado no albergue Atlantic Point Backpackers, situado no bairro residencial Green Point, aos pés do morro Signal Hill. Foi o melhor lugar no qual dormi em toda a viagem. Bonito, limpo, equipado, com café decente, atividades diárias e boa localização, o disputado dormitório de 8 camas (270 rands) tem um custo-benefício ótimo.

albergue cape town

Ao amanhecer, caminhei tranquilamente pela região que durante a colonização holandesa era um banhado e depois na guerra contra os ingleses se tornou um acampamento de tropas, até finalmente virar um parque para prática de esportes e lazer, além de conter o belo estádio inaugurado na Copa do Mundo de Futebol da África do Sul, em 2006.

bairro green point

O bairro é de classe alta. Exceto por alguns mendigos e golpistas nas ruas, é seguro – ao contrário da periferia, que infelizmente faz a Cidade do Cabo figurar entre as mais violentas do mundo, junto com as das Américas.

Ali comecei a me impressionar pelo desenvolvimento da cidade, diferente de tudo que tinha visto no resto do continente.

Waterfront

Parei na zona chique da orla conhecida como V&A Waterfront. Nesse ponto fica um shopping bem decente, um hipermercado, uma porção de restaurantes (alguns caros demais), passeios de barco, atrações para crianças e museus. Entrei em um desses, o centro marítimo (South African Maritime Centre). Um espaço pequeno, mas que conta de forma interessante a história naval da Cidade do Cabo.

museu maritimo

Em Waterfront também fica o Two Oceans Aquarium. O ingresso adulto comprado na bilheteria custa 150 rands. Possui diversas seções, incluindo uma com pinguins de diferentes espécies num ambiente simulado, outra para você tocar nos invertebrados marinhos, uma com as florestas de kelps (algas gigantes) e outra com águas vivas na penumbra.

cape town aquarium

Nos deques para lanchas atrás das construções é comum a presença do lobo-marinho-do-cabo (Arctocephalus pusillus) tirando um cochilo. Nesse dia não foi diferente.

Cape fur seal

Num dia posterior, voltei à área. Como mesmo antecipadamente não consegui reservar um ingresso para a Robben Island, onde Nelson Mandela passou boa parte de sua vida preso, troquei pela exposição itinerante Body Worlds Vital, dentro de um dos prédios do complexo. Por ser férias escolares, tive que pagar o valor inteiro de 160 rands. Apesar de caro, é um trabalho bem feito e diferente.

Sensíveis, abstenham-se! A exibição de cadáveres sem pele é um pouco chocante. Através de uma técnica conhecida como plastinação, os fluidos dos corpos dos falecidos são substituídos por polímeros, o que faz com que fiquem preservados. Há uma série de corpos preparados em posições e com partes específicas, com o intuito de ensinar a anatomia e fisiologia humanas, e suas doenças relacionadas.

plastination exhibit

Almocei em um dos fast foods do shopping V&A Waterfront. Quando saía, começou um show de mágica no palco em frente, que me entreteve por uma meia horinha.

the cape wheel

Já era um outro dia, quando peguei uma van na avenida principal até o centro para comprar o cartão eletrônico do novo sistema de ônibus municipal chamado MyCiti, que funciona com recargas. Quem vier pelo aeroporto a tempo de encontrar a estação aberta, pode adquirir lá mesmo.

Hout Bay

Embarquei no coletivo que seguiu pela costa oeste, com incríveis vistas de praias de um lado e montanhas no outro, até que parei no cais da praia de Hout Bay. Ali tive uma boa refeição de lula com suco de uva do próprio restaurante Mariner’s Wharf, enquanto admirava as belezas naturais em harmonia com os barcos de pesca.

hout bay

Fiz a digestão caminhando os 4 km até o World of Birds, o maior parque especializado em aves da África, possuidor de uma série de viveiros em que se passa por dentro. Bacana a diversidade de 400 espécies e bom o preço de 95 rands, mas uma pena que faltou tempo para que eu conseguisse ver tudo, pois fechava às 17 h.

parque das aves cidade do cabo

Camps Bay

Ao retornar, saltei do ônibus no meio do caminho, na refinada praia de Camps Bay, protegida pela cadeia conhecida como 12 apóstolos. Foi nomeada pelo antigo governador da cidade que se confundiu, pois na verdade são 18 protuberâncias, sem contar a Lion’s Head na extrema esquerda.

praia bonita cape town

Essa praia turística até o momento pertence à lista da Bandeira Azul, o que é muito bom, pois é uma certificação internacional a balneários que cumprem uma série de exigências ambientais.

Na companhia de caravelas encalhadas curti o pôr do sol. Como se não bastasse a água ser gelada, está aí outro motivo para ficar só pela areia (e cuidando onde pisa).

camps bay beach

Kirstenbosch National Botanical Garden

Dia novo, fui atrás do aclamado jardim botânico. Este fica aos pés do maciço central chamado de Table Mountain, mas dessa vez no lado leste. Como não há ônibus de linha ou trens passando perto, tive que pegar em Waterfront o ônibus turístico de 2 andares hop-on hop-off, o mesmo presente em várias cidades no mundo. Ele passa pelas principais atrações e, assim como os outros do tipo, você pode sair e voltar quantas vezes quiser dentro do mesmo dia. Inclui explicação com áudio em português e a tarifa de 170 rands foi ainda mais em conta do que indo de táxi.

sightseeing bus cape town

Depois de passar pelo centro, parei então no Kirstenbosch National Botanical Garden. Paga a taxa de 60 rands, logo na entrada há um viveiro temático com todos os biomas próprios do sul da África.

Kirstenbosch National Botanical Garden

Há um grande endemismo (espécies existentes apenas ali) da vegetação na região do Cabo Ocidental, o que levou a UNESCO a listar o Cape Floral Kingdom como patrimônio da humanidade. Pra salientar ainda mais a importância, saiba que o mundo todo é dividido em apenas 6 regiões florais, e uma delas é exclusiva da província do Cabo. As plantas que representam são geralmente de baixo porte, estando em abundância nos jardins e na montanha em volta.

Cansa um pouco caminhar por lá, já que o terreno é bem inclinado, mas vale para ver toda a beleza do lugar. Uma coisa interessante que fizeram é uma passarela curva que te deixa no nível da copa das árvores, a ponto de ver por cima delas. A obra é chamada de “boomslang”, que significa cobra arborícola em africâner.

mirante jardim botanico cidade cabo

No meio dos jardins você pode topar com belos pássaros, como os coloridos da família Nectariidae (sunbirds), exclusiva da África. Esse da foto é o Cinnyris chalybeus.

Cinnyris chalybeus

Pra quem quiser explorar ainda mais, há trilhas ao redor e para cima do morro. Como estava um pouco fraco de algum mal que havia pegado um dia atrás, pulei essa parte e prossegui viagem, parando novamente em Hout Bay para comer uma lula antes de voltar a Green Point.

De volta ao “lar”, lá fiz bom uso dos computadores que eles tinham disponíveis sem custo, já que estava há um bom tempo sem celular, morto no meio da África.

Simon’s Town

Em outro dia, peguei um trem na estação central em direção ao sul da península do Cabo. A tarifa super barata até Simon’s Town custa 10 rands o trecho na 2ª classe (Metro) e 16,5 na 1ª (MetroPlus) – a diferença entre classes é que na melhor os assentos são estofados e há menos gente. Não achei perigoso ir com nenhum dos tipos.

Uma hora e pouco depois, passando por lugares interessantes quando o trem atravessa pelo litoral a poucos metros das ondas, desci na estação final, Simon’s Town.

estacao trem simon town

Assim que saí da estação uma van ofereceu transporte até Boulders Beach, aonde eu iria, por alguns rands. Logo cheguei à incrível colônia dos pequenos pinguins africanos (Spheniscus demersus), que fica nessa praia. Incrível porque é tão próxima da civilização e também pela quantidade dessa espécie nativa e restrita do sul da África que está bastante ameaçada.

praia pinguim africa sul

Quando fui havia filhotes, jovens trocando a penugem, além de adultos cuidando dos novos e surfando nas ondas atrás de algum peixe de alimento. Como forma de proteção, a área é cercada pelo parque e há ninhos artificiais que os pinguins utilizam. Pelas plataformas você chega a ficar a até 1 metro de distância deles, o que torna a atração imperdível.

Simon's Town

Depois disso, almocei no Café Penguino, um dos poucos lugares para se comer nessa praia. Pequeno sim, mas limpo, saboroso e com preços justos.

simons town restaurant

Assim que terminei, voltei caminhando por dentro da pequena cidade portuária, com seu centrinho colonial até que charmoso.

Simon's Town

À noite, rolou uma sessão de cinema no sótão do albergue, atividade semanalmente programada no Atlantic Point Backpackers.

Parque Nacional Montanha da Mesa

Meu colega de albergue francês Max e eu fomos de ônibus até o Parque Nacional Montanha da Mesa (Table Mountain National Park), um dos maiores atrativos de Cape Town. A princípio iríamos pegar o caro teleférico até o topo da montanha, que atualmente custa 255 rands pela ida e volta, mas quando vimos o tamanho da fila gerada pela greve dos funcionários contra a organização 7Wonders, decidimos encarar a escalada do tabuleiro. Descobrimos na hora que a maioria das trilhas é demarcada e algumas saem bem ao lado da estação dos teleféricos.

cape town lift

Depois da ascensão inicial, tivemos que decidir que trilha pegaríamos. Escolhi a mais difícil de todas, a Kloof Corner Ridge, que passa bem sobre a crista da montanha. Quando Max viu que o primeiro passo seria subir um paredão reto com o auxílio de uma corrente, desistiu e foi pelo outro lado na trilha mais fácil. Eu como um legítimo brasileiro, não desisto nunca.

kloof corner hike entrance

Mal sabia eu da real dificuldade dessa trilha que não está nem entre as oficiais. O começo apresenta inclinação na caminhada com pedrinhas soltas em meio à vegetação baixa. A orientação se dá por meio de pilhas de pedras deixadas por quem já percorreu o caminho antes.

O bicho pegou mesmo quando chegou a hora de escalar de verdade as rochas sem equipamentos, prática conhecida como bouldering. Em algumas etapas se eu caísse poderia dar adeus, já que abaixo só havia o penhasco. Sorte que um trio mais experiente que eu estava indo pelo mesmo caminho e me alcançou. Segui junto.

Um dos passos mais difíceis para mim foi a subida totalmente vertical com uma corrente por 12 metros. Enfrentei meu medo de altura e segui firme.

kloof corner ridge table mountain

Em seguida outro aperto; literalmente, pois há um trecho em que você tem que se espremer por dentro das pedras. Mais de 2 horas depois do início, chegamos a um ponto de onde não tinha mais erro. Pudemos enfim comemorar e curtir a paisagem.

Escalada no topo do Parque Nacional Montanha da Mesa

Me separei deles. Lá em cima, no meio de um monte de turistas, comi o sanduíche que eu trouxe e recarreguei o filtro de água portátil, enquanto admirava a incrível vista panorâmica. Desde as praias mais distantes, passando pelas proeminências geológicas e o centro urbano, até o porto.

panorama cape town

Há mais trilhas na parte plana do tabuleiro, passando por áreas alagadas e pedregosas com vegetação rasteira típica (fynbos), que levam até o ponto mais alto do outro lado (1086 m), demarcado pelo Maclear’s Beacon, um cone de pedras que auxiliou na medição da curvatura da Terra em 1865.

table mountain top

Não consegui encontrar Max, mas desci pelo mesmo lugar em que ele subiu, a rota Platteklip Gorge.

rota fácil parque nacional montanha da mesa

Sentindo o joelho, desci o ziguezague sem fim com o sol já baixando e quase 2 horas depois retornei ao albergue, deixando o Parque Nacional Montanha da Mesa para trás. Recomendo que não venham nesse horário sozinhos, pois a criminalidade ali é presente, ainda que eu não tenha visto nada.

Para completar o dia cheio, com o sueco Klas e mais 2 da hospedagem, saímos atrás de alguma atração noturna. De Uber, passamos por alguns lugares até pararmos no Piano Bar. A banda que tocava até que era boa, mas o lugar é pequeno e só havia casais ali. Tomamos umas e voltamos a pé.

Sea Point

Teoricamente eu iria embora da Cidade do Cabo nesse dia, mas como gostei demais, acabei alterando meu voo para mais além. Com isso, fiquei sem hospedagem, tendo que me mudar por 1 noite para o Ashanti Backpackers, próximo e mais barato, mas um tanto pior.

No caminho, parei para almoçar no Best of Asia, um restaurante de sushi em esteira na avenida principal. Enchi a pança sem gastar muito.

Dei uma caminhada à tarde pela agradável orla de Sea Point, aonde o povo vai aos finais de semana para pegar um solzinho enquanto fazem piqueniques nos gramados, brincam nos parquinhos, nadam no mar gelado, ou pedalam e correm no longo calçadão, o que fiz em outros dias.

A praia desse bairro também é o local mais fácil para ser ver as algas pardas kelps com seus metros de talo, tanto atiradas na areia quanto flutuando no mar com seus aerocistos.

bairro sea point

À noite, fiquei lendo e vendo TV na sala comum do novo albergue.

Muizenberg

Já no meio da manhã, peguei o mesmo trem em direção a Simon’s Town, mas dessa vez saltei na estação Steenberg. Para chegar ao parque que visitaria tive que atravessar um bairro de classe baixa que me deu até medo.

O Zandvlei Estuary Nature Reserve era para ser uma área de proteção com o objetivo de preservar um estuário que desemboca no subúrbio de Muizenberg, mas infelizmente o que eu vi ao adentrar suas trilhas foi um monte de lixo, sobretudo na zona aquática, e as poucas estruturas largadas às traças e teias.

sandvlei

É realmente uma pena, pois apesar disso eu ainda consegui ver um número significativo de aves. Mas não foi à toa que não havia mais ninguém passeando por lá.

cape town birds

Subi em outro trem para desembarcar 3 estações depois na praia de Muizenberg. Ali parece ser bem mais controlado, pois há até monitoramento do avistamento de tubarões, que às vezes dão as caras. Outro destaque são as casinhas coloridas na margem.

muizenberg beach

De almoço, comi deliciosos frutos do mar no restaurante Gaslight Café, logo no começo da longínqua praia.

seafood muizenberg

Depois fiquei relaxando, vendo os e as surfistas pegarem as ondas, sem nenhum tubarão por perto.

Corri mais um pouco no fim da tarde, me despedindo a cada lugar que passava dessa cidade incrível. Certamente está entre minhas preferidas.

Fui dormir cedo por causa do voo no dia seguinte. Tomei meu último café com muffins e frutas para então pegar o ônibus até o aeroporto. Dessa vez voei com a Mango, pelo mesmo preço de antes, mas a Durban, outra grande cidade da África do Sul.

Apesar de todo esse tempo passado na Cidade do Cabo, ainda fiquei sem tempo de conhecer duas das principais atrações: As vinícolas de Stellenbosch e o Cabo da Boa Esperança no Cape Point National Park.

Mapa das atrações turísticas da Cidade do Cabo

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