El Calafate, Argentina

El Calafate, Argentina

 

Em 13 de fevereiro de 2015 aproveitei a folgona do feriado de carnaval e parti para a Patagônia. O trecho de Porto Alegre a El Calafate, com escala em Buenos Aires, custou a emissão de 10 mil milhas Smiles pela parceira Aerolíneas Argentinas, isso efetivado com muitos meses de antecedência.

Ao chegar a Buenos Aires tive que trocar de aeroporto, do Ezeiza para o Aeroparque. Quem tem conexão pela Aerolíneas pode usar o translado da empresa Manuel Tienda León de graça, mas é necessário pegar um comprovante em uma sala da companhia no próprio aeroporto. Importante salientar que os horários que estão no site não são confiáveis.

Na fase de descida do avião a El Calafate já era possível ver o lindo azul dos lagos contrastando com as pálidas estepes patagônicas. Cheguei no começo da manhã e logo dividi um táxi com outros brasileiros, já que sairia o mesmo preço do único outro transporte disponível, uma van que custava 100 pesos. Isso dá uns 25 reais na data em que escrevo, mas naquela época a cotação era menos favorável.

Um tempo depois cheguei na locadora da Hertz, para retirar o veículo que havia reservado, dividindo com os 2 amigos que encontraria posteriormente. É importante deixar claro que a locação de veículos em El Calafate é bastante cara e o transporte público é inexistente. Na época pagamos mais de 200 reais por dia para ficar com o veículo econômico por uma semana. Isso já usando código de desconto. Hoje há um pouco mais de concorrência, resultando em preços um pouco menos ruins. Então antes de fechar com a Hertz, dê uma conferida na Budget.

A cidade é quase plana. Subindo uma elevação dá para se ver toda ela e seus arredores, como o lago que a envolve.

el calafate

Reserva Laguna Nimez

Segui diretamente à Reserva Laguna Nimez, paraíso da avifauna à beira do Lago Argentino. Paguei a aceitável taxa de entrada e depois do trajeto inicial meio sem graça e uma chuva fraca que insistiu em incomodar, comecei a ver espécie após espécie em uma diversidade de ambientes. Foi a partir dessa visita que comecei a realmente me interessar em observação de aves, pois nunca havia estado em um local com tanta variedade antes.

parque aves calafate

Entre as mais de 20 e tantas espécies fotografadas facilmente pela minha ultrazoom Nikon P610, havia aves de rapina nem um pouco preocupadas com a presença humana, tanto que cheguei a ficar a menos de 3 metros de algumas delas, como o gavião-cinza (Circus cinereus).

circus cinereus

As aves aquáticas, no entanto, eram a maioria, aproveitando-se do ambiente tranquilo. Muitos tipos de patos e seus parentes, e até flamingos.

flamingos laguna nimez

Pra quem não manja muito mas quer saber o que está vendo, há um quadro de identificação das aves dentro de uma cabine para observação, localizada no meio do parque.

Também tive o primeiro contato com a fruta típica que nomeia a cidade, o calafate, embora meio murcha e pouco saborosa (em comparação ao que deveria ser), por já estar no fim da época de frutificação.

calafate fruta

No meio da tarde encontrei minha amiga bióloga Raquele, que passou os dias anteriores em outro lugar próximo recomendadíssimo, El Chaltén, terra do Monte Fitz Roy e suas trilhas e escaladas, além de fazer parte do Los Glaciares, parque descrito mais tarde.

Pegamos a rodovia em sentido norte. Do lado, a vista do azul estonteante do lago.

lago argentino

Bosque Petrificado La Leona

Paramos no hotel La Leona uma hora depois. No caminho havia diversos cicloturistas e os primeiros bandos de emas e guanacos, animais típicos adaptados a esse ecossistema severo.

guanacos el calafate

Tomamos um lanche, fizemos o câmbio mais favorável da viagem ali mesmo e perguntamos pro atendente sobre o lugar em que queríamos ir, que ele disse não ser possível de chegar por conta própria. Talvez tenha dito isso para proteger o lugar.

Não demos ouvidos, fomos para lá do mesmo jeito. Seguindo orientações vagas encontradas pela internet, atravessamos uma estrada de chão próxima ao lado sul do Lago Viedma e chegamos ao vale em meio aos erodidos morros Los Hornos, onde segundo um site havia uma “depressão profunda”. Não entramos em depressão, mas sim na depressão (piada horrível, eu sei).

los hornos el calafate

Caminhando, passamos por diversas ossadas, provavelmente de guanacos. Evidência clara da presença de pumas.

guanaco bones

Eis que breves minutos depois eu encontrei o que queria, fósseis! A floresta de pedras conhecida como Bosque Petrificado La Leona conta com troncos fósseis de 150 milhões de anos, do tempo em que as condições climáticas e geológicas suportavam uma flora expressiva. Vimos poucos troncos e nenhum dinossauro, mas já foi o suficiente para ter valido a incursão.

tree fossil

No caminho de volta o sol apenas começava a baixar, apesar de já ser quase 21 h, resultado da alta latitude.

À noite, durante toda a semana estava ocorrendo a Fiesta Nacional del Lago, com shows e inclusive a presença da ex-presidenta Cristina Kirchner, talvez por isso os preços estivessem tão inflacionados. Tanto que tivemos que jantar sanduíches comprados no supermercado, enquanto ouvíamos o show da banda Calle 13, que agitava multidões.

show festa lago

Dormimos no albergue I Keu Ken, a 200 pesos por cama. O único inconveniente desse lugar é para quem está a pé, pois ele fica no meio de um morro.

Pela manhã chegou meu outro amigo, o Vinícius. Partimos para o Parque Nacional das Torres del Paine, no Chile.

Parque Nacional Los Glaciares

Quatro dias depois voltamos, seguindo direto para o Parque Nacional Los Glaciares, patrimônio da UNESCO. Pagamos a entrada obrigatória de 200 pesos para o Mercosul e percorremos a estrada que costeia um bosque até a principal atração de El Calafate, o Glaciar Perito Moreno.

Além de passeios de barco e caminhadas sobre o gelo pagos à parte, para os mais mãos-de-vaca há plataformas incluídas no bilhete que te deixam em proximidade ao paredão da geleira, a ponto de ser possível ver e ouvir com clareza os pedaços de gelo partindo-se e desabando na água. Para maiores chances disso ocorrer, vá no verão como a gente fez. Como bônus, você não vai passar frio.

los glaciares

As colunas de gelo de 60 m de altura que se estendem por até 5 km em direção aos montes nevados, crescendo e despedaçando-se constantemente, são mais uma paisagem indescritível.

los glaciares

Para melhorar ainda mais, durante o pôr-do-sol os céus adquirem tons inimagináveis.

sunset los glaciares

Quando saímos do Los Glaciares já anoitecia. A quantidade de lebres que passava pela estrada era grande. Especialmente pela rota 60, que passa em meio a fazendas. Cruzamos por dezenas delas, felizmente nenhuma foi atropelada. Naquela escuridão, esse foi o melhor registro que o Vinícius conseguiu fazer.

lebre conejo

Dormimos para no outro dia cedinho pegarmos o voo para Ushuaia e conhecer a belíssima Terra do Fogo.

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