Chapada Diamantina National Park

Lençóis, BA (Chapada Diamantina)

 

 

Em 16 de julho, eu e meu colega biólogo Schmidt embarcamos de Floripa rumo a Salvador pela TAM. Como era período de férias, o voo não saiu tão barato assim, mas valeu a pena os 670 reais que pagamos para ida+volta.

À noite nos encontramos com minha prima Amanda no terminal rodoviário, onde dentro de algumas horas tomaríamos um ônibus pela empresa Real Expresso até Lençóis (74 reais).

Rodando por um tanto de horas, chegamos mais cedo do que o previsto: pelas 4 e meia da madruga já nos encontrávamos em uma praça da cidade, já que não há nem sala de espera no “terminal de ônibus” de Lençóis.

Na praça do Rio Lençóis, que divide a cidadezinha de 11 mil habitantes fundada em 1844 para o garimpo de diamantes, esperamos os muitos pássaros cantarem ao amanhecer para tomar um café em algum dos estabelecimentos que começavam a abrir.

rio lençóis

Antes de começarmos a caminhar pelo nosso roteiro, compramos um cartucho de gás para fogareiro na loja de equipamentos de aventura por 22 reais. Ao sair do centrinho não há escapatória, para qualquer direção que você siga há um morro. Como prevíamos caminhar dias sem fim, nossas mochilas estavam bastante pesadas, o que não facilitou as subidas.

Trilha Lençóis-Vale do Capão

Usei o celular para seguirmos o seguinte mapa da rota traçada por GPS no Wikiloc:

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Demarcada inicialmente com um caminho de pedras roladas, logo deixamos Lençóis para trás para adentrar a vegetação de cerrado, na companhia de muitos calangos.

mirante de lençóis

À continuação, o caminho vira terra ou rochas, um pouco fechado e com orientação não muito fácil – além de não vermos uma pessoa sequer no caminho todo. Ao menos a beleza das chapadas começa a dar as caras.

Chapada Diamantina National Park

O clima já estava bastante quente, então um pouco antes da metade do trajeto desviamos um pouquinho da trilha achando um abrigo para termos uma refeição e descansarmos um pouco.

chapada diamantina

Dali em diante a trilha passa próxima ao riacho perene que fica no vale entre dois trechos de chapada, cruzando-o em alguns pontos inclusive. Você pode recarregar seu cantil e tomar um banho.

rio chapada diamantina

Os trechos seguintes não apresentam muito interesse do ponto de vista paisagístico, ao menos até você conseguir ver o Monte Tabor, também chamado de Morrão.

Monte Tabor

Como o exaustivo dia já estava no fim e ainda restavam alguns quilômetros para a sede do vilarejo de Caeté-Açu, aproveitamos para testar nossos equipamentos de camping recém-adquiridos. Montamos o acampamento um pouco depois da bifurcação para o Morrão, em uma zona arenosa próxima ao riacho na fronteira do parque.

camping-chapada-diamantina

Para cozinhar nossas refeições fiz uso de um conjunto de recipientes de titânio, ou seja, que são ultra leves, não enferrujam e não deixam gosto ruim. Já o fogareiro foi um bastante compacto e com pouquíssimo peso, com controle da chama e que acende com piezoeletricidade (não precisa de pilha ou isqueiro).

Para dormir, a minha foi uma barraca simples e barata, um saco de dormir leve e compacto, um travesseiro inflável antiderrapante e um isolante térmico de espuma.

Apesar de todo aparato, a noite não foi tão tranquila assim. Um pouco antes de dormir escutamos vozes e vimos luzes passando próximas a nós por algumas vezes. Como não sabíamos se seriam caçadores, funcionários do parque ou outros aventureiros, nos recolhemos em absoluto silêncio, torcendo para nada acontecer…

Felizmente não nos acharam. Os únicos barulhos que ouvi mais tarde naquela noite tiveram procedência de dentro das barracas.

Passamos 2 dias no Vale do Capão antes de voltarmos à Lençóis para mais ação.

Quando regressamos, dormimos as noites seguintes no Viela Hostel (40 reais/noite/pessoa), localizado em um beco no centrinho de Lençóis. Lá conhecemos a paulistana Aline, que nos acompanhou na aventura do dia seguinte.

Gruta do Lapão

Exploramos sozinhos nada menos que a segunda maior caverna de quartzito do país, a Gruta do Lapão, com cerca de 1 km de profundidade. No caminho até lá (oposto à trilha anterior) que passa por uma subida de morro e vegetação seca, uma cobra pequena mas venenosa atravessou em nossa frente com um olhar afiado.

cobra chapada diamantina

Para entrar na gruta tivemos que passar por um declive entre as rochas próximas a um penhasco. Não vou deixar a localização exata porque é arriscado demais atravessá-la sem guia, como perceberão em seguida.

A entrada (ou saída) é bastante ampla. Em uma das rochas estava um boné abandonado. Seria de alguém que entrou e nunca mais saiu?

Gruta do Lapão

Com lanternas de cabeça e mãos seguimos pela cavidade completamente escura.

exploração de caverna

Como é formada por quartzito e não calcário, os espeleotemas são poucos e diminutos, mas ainda assim considero sua beleza singular.

espeleotema de quartzito

A caminhada lá dentro também não é fácil. Em alguns trechos é necessário escalar grandes pedaços de quartzito e em outros o espaço é bem estreito, especialmente mais no final.

Gruta do Lapão

O pior de tudo, no entanto, é a orientação. Há várias horas nos encontrávamos naquele ambiente claustrofóbico quando o amplo corredor principal chegou ao fim, sem nenhuma saída visível. Nessa hora o grupo começou a ficar bastante preocupado, pois se tivéssemos que retornar pelo mesmo caminho provavelmente não sairíamos antes do sol se pôr.

Dessa forma, fui rapidamente atrás das possíveis saídas enquanto os outros aguardavam para que não nos desencontrássemos. Desci abismos, escalei paredões, me arrastei entre fissuras, tudo sem sucesso.

O desespero de parte do quarteto começou a ficar maior, até que finalmente encontrei um outro salão, que levou a um terceiro, de onde eu já estava incomunicável com o resto do bando. Lá, num cantinho quase imperceptível, um raio de luz atravessava timidamente as pedras. Removi algumas delas e pude enfim encontrar uma saída. Se fosse uma ou duas horas mais tarde, possivelmente eu não a acharia.

Arranhado e suado, voltei para tranquilizar os 3. Enfim, muitas horas depois de ingressar, saímos da Gruta do Lapão em um buraco impossível de ser notado do lado de fora.

relevo da chapada diamantina

Com o GPS ativado, caminhamos aliviados sobre as rochas até a trilha de volta, chegando na cidade exatamente quando o sol dava adeus.

Nessa noite, comemoramos o sucesso da aventura em um dos restaurantes na rua mais movimentada e animada de Lençóis, apenas uma quadra ao lado de nosso albergue.

rua de lençóis

Para o dia seguinte contratamos um carro com motora que levou a algumas atrações ao norte eu, Schmidt, Amanda e mais 2 do albergue (não, o carro não era pra tanta gente), por pouco a mais que pagaríamos para alugar um carro por conta própria, já que a oferta era escassa.

Poço do Diabo e Morro do Pai Inácio

A primeira atração foi o supersticioso Poço do Diabo. Como fomos um pouco cedo, tivemos o privilégio de ter somente para nós toda a piscina natural gerada por uma cachoeira no Rio Mucugezinho. Escura por causa da alta concentração de ferro, nada de poluição.

Poço do Diabo

Enquanto nadávamos, saguis-de-tufos-pretos (Callithrix penicillata) se aproximaram nas árvores em ambos os lados.

saguis na chapada diamantina

Com o acesso fácil até esse lugar às margens da BR-242, quando saímos o poço começou a encher de turistas e locais.

Prosseguimos para outras atrações no município de Iraquara (relato em breve), onde ficamos até o fim da tarde. Foi quando voltamos até a divisa da cidade no Morro do Pai Inácio, o cartão postal da Chapada Diamantina.

Chapada Diamantina National Park

Subimos na manha e ficamos admirando a beleza dos cânions formados pelas escarpas cheias de vegetação à volta e, na hora do pôr do sol, fomos ao outro lado, para escaparmos um pouco da galera que visitava em peso nesse horário.

sunset chapada diamantina

O problema de ficar até o astro maior sumir é a fila enorme que se forma para a descida…

Dessa vez no jantar experimentamos o tal do godó de banana, culinária típica da Chapada Diamantina. É uma mistura temperada de banana verde com carne. Comestível, mas nada de excepcional. Excepcional apenas nosso garçom comédia de todas as noites, que nos atendia visivelmente chapado.

culinária do nordeste

Ribeirão do Meio

No novo dia, eu, Amanda e Schmidt andamos por uma trilha fácil até outro dos atrativos de Lençóis, o escorregador natural de Ribeirão do Meio.

Pelo meio da trilha vimos o colorido surucuá-variado (Trogon surrucura), ave que tem o diferente hábito de fazer seu ninho em cupinzeiros arbóreos.

Trogon surrucura

Ao chegar, tivemos a visão do interessante tobogã de cerca de 20 metros diretamente na rocha inclinada do Rio Ribeirão do Meio.

Ribeirão do Meio Chapada Diamantina

Enquanto Amanda assava no sol, fiz questão de entrar na brincadeira. A cada vez que subia vinha a vontade de aumentar a velocidade. O problema disso é que os danos no corpo também aumentavam, pois a descida não era nada suave.

escorrega do ribeirão do meio

De volta depois de um tempo nos divertindo, paramos na lojinha do Açaí na Tigela, para nos deliciarmos com um maravilhoso e barato copo de açaí com granola e leite em pó.

açaí chapada diamantina

Já no começo da noite, rolou uma batucada no Mercado Cultural, onde também ficam tendas de artesanato.

show no mercado cultural

Depois do jantar, eu, Amanda e Aline tomamos umas enquanto curtíamos uma regueira na rua na companhia de uma recém-chegada no albergue, a carioca Jéssica, além de sua irmã. As “baladas” de Lençóis não vão muito além disso, a não ser que você curta um bailão.

festa em lençóis

No último dia ficamos à toa, revisitando os lugares e comprando lembranças, como licores e rapaduras.

O retorno à Salvador se deu às 23:30 pela mesma empresa da vinda. Ao chegar me separei dos dois, que tiveram que retornar à Floripa, e dividi um Uber com 2 gringos até o terminal aquaviário para tomar a balsa para Morro de São Paulo, onde continuei minha viagem…

 

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