Caeté-Açu

Palmeiras, BA (Vale do Capão)

 

 

O primeiro dia de aventuras na Chapada Diamantina, iniciado em Lençóis, terminou com o acampamento selvagem já no território do município de Palmeiras. Este, cuja economia atualmente é baseada no ecoturismo, inclui as formações geológicas do Vale do Capão e o distrito alternativo de Caeté-Açu.

Ao raiar do sol, eu, Amanda e Schmidt desmontamos nossas barracas, cruzamos o riacho e para o distrito seguimos na trilha de terra batida e areia que passa junto à cerca que separa o Parque Nacional Chapada Diamantina. Logo o imponente Morrão (Monte Tabor) ficou para trás.

Monte Tabor

No trecho de alguns km até Caeté-Açu, algumas aves interessantes passaram pela gente, entre elas o beija-flor-de-gravata-vermelha, a saíra-amarela e uma fêmea adulta do pequenino balança-rabo-de-chapéu-preto (Polioptila plumbea).

Polioptila plumbea chapada diamantina

Infelizmente, o esforço do dia anterior foi demais para meus companheiros. Por causa disso tivemos que abortar a travessia do Vale do Capão que duraria quase uma semana e pensar num roteiro alternativo que permitisse que todos continuassem.

Ao passar pelas primeiras construções da vila, pegamos a primeira rua à esquerda e fomos diretamente à Associação dos Condutores de Visitantes do Vale do Capão. Lá nos informamos sobre o que poderíamos fazer de imediato.

Enquanto pensávamos, provamos na lanchonete ao lado mais um prato da culinária regional, o pastel de palmito de jaca. Elaborado refogando a parte que a maioria desperdiça, por incrível que pareça tem um sabor aproximado ao de carne. Aprovado!

pastel de palmito de jaca

Cachoeira da Fumaça

Decidimos deixar nossas mochilas na associação e percorrer a trilha da Cachoeira da Fumaça. De acesso e sinalização fácil, basta assinar uma lista nessa mesma associação e seguir pela rua até a entrada da trilha.

De fato, o trajeto está presente até mesmo no Google Mapas.

mapa da trilha da cachoeira da fumaça

O único segmento que demanda um pouco de preparo físico é o inicial, onde há uma subida íngreme. Chegando ao topo, tirando o calor é só alegria, com vistas longínquas para quase todos os lados.

mirante do vale do capão

Calangos, gafanhotos gigantes e um curioso rabo-mole-da-serra (Embernagra longicauda) foram os primeiros animais que vimos.

rabo-mole-da-serra

Quanto à vegetação, quando não estava queimada ou seca, era apenas de porte herbáceo ou arbustivo, e típica de cerrado.

Passamos por uma dezena de turistas ao longo da caminhada, a maioria acompanhados de guias. O último grupo estava descansando no trecho escuro de córrego quase parado e seco que resulta na Cachoeira da Fumaça.

riacho na cachoeira da fumaça

Acontece que essa água não é estéril. Além dos já esperados insetos, um outro bicho chamou a atenção do povo. Nada menos que uma cobra d’água jazia na margem avermelhada.

cobra chapada diamantina

Com a aproximação dos humanos ela mergulhou até as profundezas, sumindo de vista. Embora não fosse perigosa, achamos melhor não nadar por ali, ainda mais que no retorno vimos uma outra cobra diferente no mesmo lugar!

Já no mirante, a vista lá de cima é de uma grandiosidade exuberante, parecida com a do Parque Nacional de Aparados da Serra. Essa é a Serra do Sincorá, que preenche o interior da Chapada Diamantina.

Cachoeira da Fumaça

Da rocha plana projetada à esquerda contemplamos a paisagem por um tempo. Infelizmente a Cachoeira da Fumaça fez jus a seu nome. Com 340 metros de queda, era pra ser a segunda maior cachoeira do Brasil, mas apenas um veio quase invisível de água descia pelo paredão à direita naquele momento, mais facilmente visto pelo trecho menos visitado do mesmo lado, para onde fomos em seguida.

Um punhado de aves e o único mamífero que avistamos estavam por lá. Eis o relativamente grande e tímido roedor chamado de mocó (Kerodon rupestris), que vive no meio das rochas.

mocó chapada diamantina

Caeté-Açu

De volta à Caeté-Açu, depois de procurarmos um lugar para pernoitar, fomos conhecer o centrinho. O lugar é uma mistura de moradores antigos nordestinos, bichos-grilo que se mudaram até do exterior para lá em busca de tranquilidade e natureza preservada, e mochileiros atrás de aventuras. Boas vibrações rolam por ali.

Caeté-açu

Dessa forma, há agências turísticas, casas de massagem, lojinhas que vendem roupas alternativas e acessórios artesanais, além de alimentação vegetariana, como o pastel que havíamos comido.

No jantar, escolhemos a Al Capãone, uma pizzaria na rua principal. Além de apetitosa e com preço justo, duas características tornavam o pequeno estabelecimento singular: os sabores eram exclusivamente vegetarianos e havia até mesmo uma vegana (sem queijo), e as pizzas eram servidas em um balcão diretamente na rua, uma ótima ideia para um lugar tranquilo como aquele.

al capãone

Quem passava não deixava de provar um pedaço e repetir. A pobre gringa que servia quase não dava conta de atender todos.

Ficamos com a indiana pousada/albergue/camping Lakshmi para a hospedagem. Enquanto que Amanda e Schmidt ficaram no quarto compartilhado usando o wi-fi disponível, eu dividi o terreno duro do camping com mais umas 5 barracas, dezenas de árvores e aves diferentes e uma infinidade de estrelas.

camping lakshmi

Como precisava me livrar do peso da comida que eu carregava para a longa caminhada que não ocorreu, dispensei o café-da-manhã pago à parte e meti bronca no leite em pó e granola.

Cachoeira do Rio Preto e Rodas

À nordeste da vila ficam as cachoeiras Rodas e do Rio Preto, outros atrativos próximos acessados por trilha, mas interessante de serem feitas com um guia. De fato, como fomos sozinhos tivemos que perguntar diversas vezes ao longo das bifurcações para acharmos as benditas, já que o sinal do GPS não estava nada bom, e na volta essa dificuldade de orientação também deu uma zica.

Tá meio apagada a placa, mas se você chegou nesse trecho já fora da vila, basta pegar a esquerda que no final da reta começa a trilha propriamente dita.

acesso para cachoeira rodas do rio preto

A primeira parada é na cachoeira de Rodas, que é uma corredeira inclinada, mas pouco interessante de se cair dentro com o volume de água que apresentava.

cachoeira vale do capão

A trilha segue paralelamente a esse curso d’água, até que encontra o Rio Preto. Mas ainda faltam uns 150 metros até a tal cachoeira e seu poço. Como não sabíamos que havia uma trilha pela encosta do morro, fomos saltando os pedregulhos que de tão concentrados quase escondem a água.

Caeté-Açu

O poço tem uns 400 metros quadrados, então dá pra nadar tranquilo. Havia umas poucas pessoas por lá enquanto ficamos. Além disso, dá para subir pelas pedras até a parte de cima da cachoeira, onde corre um riozinho, mas o principal é a cascata em si.

rio preto chapada diamantina

Pra quem quiser arriscar, a trilha a seguir é essa:

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Na volta, minha prima saiu antes e a gente não se viu na trilha, só encontrei ela horas depois em Caeté-Açu, quando ela voltou com um grupo porque não tinha achado o caminho sozinha.

Enfim, comemos um sanduba e mais tarde tomamos uma gelada enquanto esperávamos a van noturna que sai da praça central e nos deixa no terminal rodoviário de Palmeiras, onde logo em seguida sai o ônibus de volta para Lençóis, para a continuação do passeio pela Chapada Diamantina.

 

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