torres del paine

Torres del Paine, Chile

 

O circuito de trilhas com acampamentos de Torres del Paine ao longo de montanhas nevadas, lagos azul-celeste intocados e bosques é considerado um dos melhores do planeta, graças às incríveis paisagens patagônicas.

Depois de uma bela introdução a esta região por El Calafate, em uma manhã de fevereiro de 2015 eu e meus amigos Raquele e Vini seguimos de carro pela rodovia que corta as estepes patagônicas até o Chile. Decidimos alugar um carro ao invés de usar o serviço de algum ônibus turístico por causa da autonomia e diferença de preço. No entanto, quase ficamos sem combustível no caminho, pois aquele que seria o único posto, segundo o frentista do mesmo, estava zerado de gasolina. Saímos de Esperanza com a esperança de não ficarmos no meio da estrada. Seguimos economizando o possível, até que na Estância Tapi Aike milagrosamente surgiu uma bomba de combustível, embora parecesse abandonada. Quase invadimos a casa para sermos atendidos, mas o importante é que conseguimos ir adiante.

Fronteira Argentina-Chile

No meio da tarde chegamos às aduanas de fronteira de Paso Río Don Guillermo. Como havia poucos carros e nenhum ônibus naquela hora, até que foi rápida a travessia. Não levei alimento algum pensando que teria problema, mas as únicas coisas confiscadas foram os sachês de mel do Vini, pois as comidas industrializadas eles deixaram passar. Outro detalhe importante é que para cruzar a fronteira com um carro alugado é obrigatória uma autorização providenciada pela locadora , o que tem que ser arranjado previamente a um custo adicional.

chile frontier

O vilarejo logo após a fronteira no Chile é Cerro Castillo. Esse que é o único centro antes do parque possuía apenas uns 4 comércios para se comprar mantimentos. Não deixe para comprar em Torres del Paine, pois o preço é caríssimo. O primeiro estabelecimento da vila é o mais turístico e caro, só o utilize para fazer o câmbio. Indico esse amarelo da foto, pois além do preço cair pela metade ainda aceitavam cartão de crédito. Não compre ou leve água, pois há disponível e puríssima durante todo o circuito, e cada kg a menos é precioso.

fronteira chile mercado

Parque Nacional Torres del Paine

Enfim, chegamos à área de Torres del Paine de carro. O Parque Nacional Torres del Paine, cuja área foi descoberta por exploradores e cientistas apenas no fim do século XIX, teve sua criação formal em 1959, a fim de proteger os ecossistemas patagônicos ao redor das feições geológicas que o nomeiam. Na atualidade recebe até 140 mil turistas por ano, de todas as partes do globo.

Parada rápida para o primeiro panorama do visual no Lago Sarmiento. Ao fundo, as torres graníticas ainda parcialmente ocultas ao lado do Monte Almirante Nieto. As formações cinzentas na borda do lago são trombólitos, estruturas com milhares de anos formadas por cianobactérias em ambientes com salinidade e pH altos.

trombólitos lago sarmiento

Em seguida, mais lagos de diversas cores, como a Laguna Amarga, também com alta salinidade e lar de bandos de belos flamingos.

flamingo laguna amarga

Ao pagar os quase 100 reais em pesos chilenos do ingresso adulto estrangeiro de alta temporada na portaria Laguna Amarga, tivemos a péssima notícia de que havíamos chegado tarde demais para subir as Torres del Paine. Dessa forma tivemos que acampar no camping da Hostería Las Torres e replanejar o roteiro para compensar as cerca de 5 h que deveríamos ter feito naquele dia. Os campings pagos do parque custam todos em torno de 8000 pesos chilenos (40 e poucos reais), pouco se comparado ao preço dos alimentos por lá.

No final dessa página está o mapa geolocalizado do roteiro seguido, com os principais pontos de interesse, como acampamentos e mirantes. Para mais informações e o mapa oficial, podem consultar o site oficial do Parque Nacional Torres del Paine.

Las Torres -> Los Cuernos

Havia uma quantidade impressionante de gringos espalhados entre o camping, o refúgio e o hotel, que são as 3 opções de conforto conforme seu orçamento. Assim como nos demais campings pagos, havia água quente e eletricidade. Inauguramos a barraca de luxo da Raquele, a Azteq Minipack, enquanto o Vini ficou com a minha emprestada, quase uma Toca do Gugu. Não sabia que necessitaria de isolante para o chão pedregoso e gelado do parque. Sofri por isso em todos os acampamentos. Um simples de EVA aluminizado, como o levado por minha amiga, já resolveria.

Ao raiar do dia foi iniciada a caminhada com a subida dos belos e ventantes morros. Seguiríamos o circuito W, mais curto em relação ao outro disponível, chamado de O, ambos denominados em relação a forma de seus trajetos. Para percursos longos de trilha com esforço físico é recomendado ingerir alimentos energéticos de fácil digestão, para otimizar a energia nos músculos. O mais em conta e fácil de ser encontrado no Brasil (e que não há nos mercados de Cerro Castillo) é o gel de carboidrato à base de maltodextrina. Não abra mão de alguns sachês durante seu trajeto.

Durante a ascensão conheci as duas frutinhas róseo-avermelhadas que cresciam junto ao solo e fariam parte da minha alimentação durante essa jornada, a chaura e a murtilla, levemente doces e ácidas. Infelizmente os saborosos calafates azulados eram uma raridade por lá.

chaura murtilla

Atravessamos um rio e o primeiro acampamento, o Chileno (pago), em meio ao esparso bosque magalhânico das árvores chamadas de lengas (Nothofagus), símbolo do parque.

campamento chileno

Continuamos subindo por mais uma hora e pouco em um trecho bem íngreme até chegarmos a uma zona pedregosa exposta. Ali a inclinação e a ventania eram ambos dificultadores.

Vencidos esses desafios, chegamos ao prêmio: a principal atração do parque, que são as 3 torres sólidas de granito que atingem até 2800 m, com seu lago glacial azul celeste em frente. Não há como expressar em fotos a grandiosidade daquela cena.

torres del paine

Depois de muito admirá-las, batemos uma boquinha e descemos, não sem antes sermos surpreendidos por uma tromba d’água. É uma pena que a câmera não foi ágil o suficiente para registrar a cena, que se repetiria no lago seguinte.

A trilha de todo o circuito é razoavelmente bem sinalizada, embora as placas estejam voltadas para quem faz o trajeto em sentido contrário (a grande maioria). Assim, quando havia uma bifurcação, só sabíamos o caminho certo ao chegar ao seu final. Ainda bem que tínhamos GPS no celular e que a bateria dele durou todo o tempo necessário.

Voltamos até quase o nível do mar, em um campo raso que costeia o grande Lago Nordenskjöld, de 15 km de comprimento.

trilha los cuernos

Nesse longo caminho quase plano de 11 km vimos um punhado de plantas e aves diferentes, que tiraram a monotonia da paisagem.

Quando o dia ameaçava terminar, cruzamos o último morro e vimos o acampamento seguinte (Los Cuernos). Com o atraso no itinerário devido ao ingresso tardio no parque, tivemos que acampar novamente em um lugar pago. Assim que terminamos de armar as barracas no parco trecho de terreno ainda disponível, a noite chegou. Meus amigos jantaram seus miojos de copo enquanto eu fiquei com as sobras e um sanduíche de queijo e presunto.

Depois de um banho quente e uma contemplada num dos céus mais bonitos que já vi na vida, parti para a cama, ou melhor, saco de dormir. Vini não teve tanta sorte, pois passou a noite preocupado com um rato que resolveu aparecer atrás de sua barraca.

camping los cuernos

Los Cuernos -> Paine Grande

Amanheceu um dia chuvoso e mais frio que o anterior. Nesse momento meus lábios já haviam ressecado o suficiente para rachar e a situação só foi piorando, já que não tinha nada para passar. Em virtude de nosso atraso, decidimos que somente eu percorreria a segunda ascensão do circuito W, os demais seguiriam lentamente ao acampamento Paine Grande a 13 km dali e nos encontraríamos no fim do dia.

Com isso, enquanto eles descansavam, tomei um litro do leite em pó que peguei no mercado da fronteira e coloquei a roupa impermeável para a caminhada. O Frogg Toggs, ainda que pareça papel crepom, é razoavelmente barato, bem leve e compacto, e cumpre muito bem a sua finalidade, então recomendo fortemente. Pouco depois surgiu o sol, que me obrigou a trocar as vestimentas novamente. O tempo, aliás, ficou nesse ziguezague constante. Continuei ao longo do belo Lago Nordenskjöld, já mirando o Cerro Paine Grande.

lago nordenskjold
Na bifurcação entre quem segue reto toda vida ou sobe o Vale do Francês fica o acampamento Italiano, mais um dos gratuitos. Se for dormir por ali ou nos outros em que não é necessário pagar, não espere mordomias como água quente e luz elétrica.

A difícil ascensão margeava um rio, geleiras e o cume da montanha, de impressionantes 3050 metros, ligeiramente superior à mais alta montanha brasileira. Havia muitos idosos nesse circuito, todos eles bem equipados.

valle del francés

Nessa hora tive que pôr novamente uma roupa mais propícia ao frio e vento que fazia. Parei para comer uma maçã no mirante intermediário, de onde a maioria dos caminhantes e seus bastões não passam, e continuei subindo. Já estava bastante cansado e até um pouco atrasado no horário, quando fui agraciado por uma precipitação de granizo, uma novidade para mim.

O êxtase das paisagens incríveis me deu forças para o trecho final mais duro, até o Mirador Británico. Infelizmente o clima frio e nublado não ajudou nas fotos e esgotou a bateria da minha câmera. Paciência, mas fiquei bem de boa lá no topo enquanto almoçava e admirava a paisagem em completo silêncio, sem uma viva alma em volta.

parque nacional torres del paine

A possível continuação da trilha estava fechada, então tive que descer. A passos largos atravessei a extensa floresta carbonizada, resultado de um incêndio de grande proporção causado por um israelense em 2012, fato que motivou a proibição de fogueiras no parque. Nesse ínterim, apenas a vegetação rasteira havia se recuperado.

torres del paine national park

Novamente no final da tarde, cheguei ao acampamento Vértice Paine Grande. Como meu alimento estocado estava terminando, fui obrigado a comprar na cara mercearia da propriedade particular que gerencia o camping.

Paine Grande Camping

Depois do jantar, quando os campistas disputavam a unha as tomadas disponíveis, provamos o excelente licor de calafate que tínhamos comprado na fronteira. Como não havia árvores no camping, que ficava em um campo com proteção parcial de um morro de um lado mas totalmente aberto com o Lago Pehoé do outro, o vento soprava tão forte que praticamente destruiu a barraca que estava com o Vini.

Paine Grande -> Villa Monzino

Esgotados das noites mal dormidas e caminhadas sem fim, partimos para o terceiro e esperado último dia de trilhas. Um aviso de amigo, não experimentem brincar com a flor da foto abaixo, que irá aparecer em abundância logo no começo desse trecho. Caso contrário, irão passar um bom tempo até conseguir remover a centena de espinhos que se fixam individualmente.

planta espinho
Continuando, avistamos icebergs de cores surrealmente diferentes da água na borda do Lago Grey, sinal de que a geleira estava se aproximando.

iceberg grey

Dito e feito. Um pouco depois chegamos ao mirador do Glaciar Grey, onde a longuíssima geleira avança sobre o lago de mesmo nome e sobre uma ilha que a contém.

glaciar grey

Para chegar na geleira pode-se continuar pela trilha ou tomar uma embarcação na Hostería Lago Grey, distante dali. Regressamos a Paine Grande para optar por outra alternativa. Quem trilha o circuito W normalmente o termina pegando um barco pelo Lago Pehoé até a Guardería Pudeto, mas como o cronograma do pouco frequente veículo não era compatível com o nosso, demos mais uma boa pernada para o sul, em um dos trechos menos percorridos do parque.

bosque carbonizado

Apesar das belas paisagens iniciais, a maior parte dos 17 km seguintes seria bastante monótona, uma pradaria sem fim, com poucas aves e nenhum outro animal passando. Ao menos o trajeto era plano.

las carretas trail

Ao chegar ao camping Las Carretas, desprovido de qualquer infraestrutura, tivemos que tomar a decisão mais difícil: ter outra péssima noite ali mesmo ou arriscar seguir caminho e conseguir carona para voltar à outra portaria onde estava o carro, há quase 50 km dali? Escolhemos a segunda opção. Chegamos à sede administrativa Villa Monzino onde passava a estrada geral, mas os poucos veículos que iam em sentido norte naquele fim de dia eram os transportes dos hotéis. Com isso, tivemos que hablar pedindo clemência ao responsável pelo local, um senhor que nos deixou acampar ao lado do prédio que fica na margem do Lago Toro, numa das extremidades do Parque Nacional Torres del Paine. Esse chileno foi tão gentil que até me passou a senha do wifi para que eu pudesse avisar a minha mãe que ainda estava vivo.

Improvisamos um conserto para que a segunda barraca pudesse passar sua última noite conosco antes de ir dessa para melhor. Solitários, os únicos ruídos dessa noite foram dos ventos uivantes e dos roncos do Vini, ambos amedrontadores.

Ao menos começamos bem o dia seguinte. No segundo carro que passou, com um simpático casal de italianos, conseguimos carona para os 3 e para nossas mochilas até a longínqua portaria Laguna Amarga. Uma hora depois lá estávamos de volta. Juntamos os últimos 8 dólares que tínhamos para pagar o translado até o hotel para eu retirar o carro que lá repousava gratuitamente.

No caminho até a fronteira, flagramos um bando de uma das maiores aves do planeta, os carniceiros condores andinos (Vultur gryphus), em voo baixo.

condor andes

Por fim, fizemos o trecho de volta a El Calafate, dessa vez por um atalho de brita. E um dia depois chegamos ao destino final, Ushuaia. Passada essa experiência, posso afirmar que esse é sem dúvida um dos circuitos de trekking mais recompensadores do planeta.

Mapa dos pontos de interesse de Torres del Paine

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