Ushuaia, Argentina

 

Cidade mais ao sul do mundo atrai pelas montanhas nevadas e os passeios no Canal de Beagle, povoado por pinguins e cetáceos. O Parque Nacional da Terra do Fogo conta com trilhas no belo bosque magalhânico.

Cedinho em 20 fevereiro de 2015, eu e meu chapa Vini pegamos o voo de El Calafate para Ushuaia, ou “Uçuaia”, como dizem os argentinos. Peguei umas dicas valiosas no centro de informações do aeroporto e, claro, carimbei meu passaporte com o selo do fim do mundo. É gratuito, então não percam a oportunidade, pois basta achar o guichê lá mesmo e escolher um dos modelos disponíveis.

Como Ushuaia é uma zona franca, as coisas são consideravelmente mais baratas que em El Calafate. Por isso, conseguimos finalmente almoçar em um restaurante de verdade, no El Turco, que fica na principal avenida do centro, a San Martín. O centro da cidade não tem o mesmo charme de El Calafate, mas ainda assim é bem agradável e as montanhas nevadas nos arredores (Glaciar Martial e Cerro Castor) melhoram a paisagem. Agradável dentro das construções climatizadas, claro, pois os ventos e baixas temperaturas limitam as caminhadas externas mesmo no verão, sobretudo em dias nublados e à noite.

beagle channel

Canal de Beagle

No píer em frente à cidade reservamos um dos passeios pelo Canal de Beagle, que são disponibilizados por diversas empresas, mas com preços muito semelhantes. Escolhemos o de 750 pesos (atualmente menos de 190 reais, mas na época bem mais), que passava pelas ilhas do canal comum a todos e mais a dos pinguins. Estava um pouco receoso pelo preço, mas posso dizer que valeu muito a pena.

O passeio de quase 7 h sobre um catamarã tem início pela passagem de ilhotas rochosas cobertas de colônias de aves (Isla de los Pájaros), principalmente o cormorão, que à distância parece um pinguim. Além destes, há gaivotas, trinta-réis, albatrozes, entre outras espécies menos frequentes.

canal de beagle

Um pouco à frente fica a Ilha dos Lobos Marinhos, que abriga algumas dezenas desses animais gordos e tranquilos.

canal de beagle

Continuando, se passa pelo Farol Les Eclaireurs. Com 11 metros de altura, ainda está em funcionamento. O cenário com o Cerro Castor (estação de esqui) ao fundo é estonteante.

Farol Les Eclaireurs no Canal de Beagle com o Cerro Castor no fundo

Bandos de aves acompanhavam e passavam pelas embarcações. A continuação é por um bom trecho sem ilhas, com raros povoados no lado argentino do canal e o vilarejo chileno de Puerto Williams do outro. Este, disputa com Ushuaia o título de cidade mais austral do mundo. Ainda que esteja a 8 minutos de grau mais ao sul, talvez não o seja pelo fato da população ter menos de 3000 habitantes, sendo a maioria de militares e pescadores.

beagle channel

Em seguida, a embarcação passa pela Ilha Gable, nomeada em referência à estrutura geológica formada na última glaciação, em forma de gablete (termo arquitetônico).

Gable Island at Beagle Channel

Após contorná-la, chega-se ao destino final, a Ilha Martillo, mais conhecida como Pinguinera.

isla martillo

Incontáveis pinguins-de-magalhães (Spheniscus magellanicus), que visitam o litoral brasileiro todo ano, se reúnem nesse pedaço de terra como parte do seu ciclo de vida, e nos brindam com essa exibição incrível. Junto a eles aparecem algumas aves oportunistas, como urubus e mandriões (Stercorarius chilensis), em busca de presas fáceis – filhotes, ovos, moribundos e cadáveres.

Mandrião-chileno (Stercorarius chilensis) na Isla Martillo no Canal de Beagle

Além da grande maioria de pinguins da espécie anterior, não é difícil encontrar outras duas, registradas pela minha câmera: na esquerda o papua (Pygoscelis papua), que é a ave mais veloz na água, e na direita o rei (Aptenodytes patagonicus), mais raro e maior que os outros.

penguin watch

Quem tem muita sorte, como minha amiga Raquele que foi no dia seguinte, consegue ver alguma baleia pelo meio do Canal de Beagle. Para os demais, resta o longo retorno assistindo documentários sobre a Terra do Fogo e sobre pinguins na cabine climatizada, ou então babando no sofá como meu amigo.

À noite, eu e Vini jantamos em um lugar animado da Av. San Martín chamado Chester. Como eu queria muito comer queijo Roquefort, uma iguaria barata na Argentina, pedi uma pizza. Enquanto detonávamos o rango e tomávamos a ótima cerveja vermelha (red ale) da marca local Beagle, no telão passava um pot-pourri de clipes de rock das décadas passadas. Esse era um bom lugar para um esquenta antes da balada, mas infelizmente fechou há algum tempo.

chester ushuaia

Retornamos em seguida ao bem localizado albergue Yakush, para dormir em seus colchões molengas.

Parque Nacional da Terra do Fogo

Às 10 h pegamos o transporte que sai de hora em hora da estação rodoviária, próxima ao píer, rumo ao Parque Nacional da Terra do Fogo. Duzentos pesos para ida e volta e mais 100 (tarifa Mercosul) para entrada no parque. O famoso Trem do Fim do Mundo custa mais que o dobro do ônibus e é extremamente lento – a única vantagem é a paisagem bem mais bonita no caminho.

Começamos pela trilha que segue da Enseada Zaratiegui pela costa da Baía Lapataia, em meio às 3 espécies de árvore do gênero Nothofagus, as mesmas que havia em Torres del Paine, no ecossistema floresta subpolar magalhânica. Não possuía grandes novidades em relação ao já visto, além de alguns passarinhos coloridos, chumaços de algas-pardas e bizarros mexilhões acinzentados, que pareciam concretados nos costões rochosos.

mexilhão ushuaia

Em meio a essa trilha estávamos morrendo de calor pela quase ausência de vento, mas quando fomos para as demais o tempo virou. Veio uma brisa do capeta e uma chuva bem chata.

Uma das trilhas leva até um observatório de aves, embora não tenha sido vista nenhuma nova naquele dia. Já o outro caminho apresenta uma turfeira gigante, gerada pela matéria orgânica sendo lentamente decomposta no frio e umidade do lugar, e coberta do musgo Sphagnum.

Parque Nacional da Terra do Fogo.

A última trilha nos mostra o estrago causado pelos castores, resultado de mais uma introdução de espécie exótica desastrosa. A castoreira, lar desses roedores, represa a água em um ponto e alaga uma baita área, onde morrem essas árvores de lento crescimento e, portanto, difícil recuperação.

castoreira

Na volta, ainda tivemos sorte de observar uma raposa vermelha fueguina (Lycalopex culpaeus lycoides) se alimentando.

raposa

Nosso transporte de volta sairia às 19 h; como ainda tinha um bom tempo fomos até a cafeteria que fica um pouco distante, junto ao centro de visitantes Alakush. Chegamos às 18:05 h, e para nossa surpresa, já estava fechada. Assim, tivemos que aguardar na sarjeta junto com um chinês maluco que ficava fotografando cavalos em atividade de cópula bem à nossa frente.

Quer passar a noite no parque para conhecer as demais atrações, como a Laguna Negra e o Cerro Guanaco? Então usufrua de um dos campings disponíveis e divirta-se.

Centro de Ushuaia

No retorno ao hostel conhecemos uma simpática dupla de brasilienses, Edgar e Conceição. Tentamos ir a um pub, mas o lugar não aceitava cartão de crédito, estava lotado e era quente demais. Com isso, eu e Vini jantamos no mesmo lugar da outra noite e depois degustamos um bom vinho que a outra dupla nos ofereceu no albergue, enquanto o mala do staff reclamava o tempo todo do volume da nossa conversa, que pelos meus cálculos beirava uns 50 decibéis. Apesar desse cara chato, a ruiva que cuidava pela manhã era gente boa.

Vini partiu de manhã cedo de volta ao Rio. Depois de um café-da-manhã reforçado, lamentavelmente sem frutas como no albergue anterior, saí para uma caminhada. Infelizmente escolhi o dia errado para as compras, pois no domingo a maioria das lojas, inclusive as de equipamentos de aventura, estava fechada. Consegui apenas comprar souvenires e ir ao supermercado pegar um bocado de alfajores de 4 pesos cada, para levar pra casa.

Na ida para o almoço, encontrei Raquele voltando de um passeio e ela também encontrou outra brasileira que tinha conhecido na viagem. Parece ser normal isso por lá. Passamos por alguns restaurantes com centolhas (caranguejo gigante) expostas, mas além de nosso orçamento. Fomos então almoçar no Café Bar Banana. O lugar sai bem em conta, mas precisa urgentemente de mais de uma garçonete para atender todo mundo. Provei a outra marca de cerva, a Cape Horn. Boa, mas ainda fico com a Beagle.

patagonian beer

Saindo de lá, pausa para um chocolate quente. Depois disso fiquei matando o tempo no albergue, pois não teria como visitar o Glaciar Martial, a outra estação de esqui de Ushuaia, e também estava sem dinheiro vivo para os museus. O principal deles é o conjunto do Museu Marítimo e Presídio de Ushuaia, de 250 pesos para quem é do Mercosul.

Museu Marítimo e Presídio de Ushuaia

Peguei o táxi e quando fui embarcar descobri que tinha uma maldita taxa de 28 pesos separada da passagem para pagar em dinheiro. E assim acabou o tour pelas terras geladas e esplendidamente belas da Patagônia!

Mapa dos pontos de interesse de Ushuaia

.

.

Deixe um comentário